Invista so um pouco dinheiro em cafe bom. Vale a pena, voce vive uma vez so.
De volta ao cafƩ
A cafeĆna Ć© a Ćŗnica droga psicoativa que podemos usar sem o menor sentimento de culpa. HĆ” um ano, fiz essa afirmação nesta coluna depois de ler um artigo do "The New England Journal of Medicine", a revista mĆ©dica de maior circulação mundial. Semanas atrĆ”s, a Folha resumiu um estudo publicado na revista "Mayo Clinic Proceedings" que aponta em outra direção.
Com base nessa aparente contradição, João Luiz Neves, de Curitiba, enviou para o Painel do Leitor a pergunta a mim dirigida: "E agora, doutor, como proceder?".
Somos bombardeados diariamente com mensagens de saĆŗde conflitantes. A internet estĆ” abarrotada de sites e de e-mails que se propagam feito vĆrus, para exaltar os benefĆcios do alho, do limĆ£o, da maçã, do tomate orgĆ¢nico, da berinjela e atĆ© da urinoterapia. O risco dessas informaƧƵes mĆ©dicas desencontradas Ć© deixar o leitor descrente de todas.
Por essa razão, e pela importância do café em nossas vidas, vou comparar as duas pesquisas.
O estudo do "New England" foi patrocinado pelos Institutos Nacionais de SaĆŗde, dos Estados Unidos. Nele, foram incluĆdos 229.119 homens e 173.141 mulheres saudĆ”veis, com idades entre 50 e 71 anos.
De acordo com o nĆŗmero de xĆcaras tomadas diariamente, o grupo foi dividido em dez categorias.
Durante os 14 anos de acompanhamento, foram a óbito 33.731 homens e 18.784 mulheres. Depois de eliminar fatores como cigarro (especialmente), sedentarismo e obesidade, ficou claro haver uma relação inversa: quanto mais café, menor o número de mortes.
Além de diminuir a mortalidade geral, tomar café reduziu o número de óbitos por diabetes, doenças cardiorrespiratórias, derrames cerebrais, ferimentos, acidentes e infecções. As mortes por câncer não foram afetadas.
O efeito protetor foi diretamente proporcional ao nĆŗmero de xĆcaras ingeridas diariamente. A diminuição mais acentuada da mortalidade aconteceu no subgrupo de seis xĆcaras ou mais por dia: redução de 10% nos homens e 15% nas mulheres.
Essa associação foi independente da preferĆŖncia por cafĆ© descafeinado ou nĆ£o, sugerindo que a proteção nĆ£o ocorre por conta da cafeĆna.
Vamos Ć publicação da revista da "Mayo Clinic". Durante 17 anos, foram acompanhados 43.727 participantes. Nesse perĆodo, ocorreram 2.512 mortes, das quais 32% por doenƧas cardiovasculares.
Comparados com os que não tomavam café, entre os bebedores contumazes do sexo masculino --definidos como aqueles que consumiam diariamente mais de quatro canecas de oito onças (equivalentes a cerca de 240 mililitros)-- houve aumento da mortalidade geral. Nas mulheres, não houve diferença estatisticamente significativa.
Entre os participantes com menos de 55 anos, no entanto, tomar mais do que as quatro canecas por dia aumentou a mortalidade em 56% entre os homens e 113% entre as mulheres.
NĆ£o houve associação entre consumo de cafĆ© e mortalidade por doenƧas cardiovasculares. Nesse caso, como relacionĆ”-lo com as mortes por infecƧƵes, acidentes automobilĆsticos ou cĆ¢ncer?
Na comparação, o primeiro estudo tem evidĆŖncias mais confiĆ”veis: incluiu dez vezes mais participantes, acompanhados por perĆodo semelhante (14 versus 17 anos), que foram divididos em dez grupos em ordem crescente da quantidade de cafĆ© ingerido por dia. Todos eles se beneficiaram.
No segundo estudo, só tiveram a mortalidade aumentada aqueles que tomavam mais de quatro canecas de 240 mililitros por dia. Ou seja, foi prejudicado apenas quem tomou mais de um litro por dia, durante 17 anos, em média.
à inexplicÔvel porque as mulheres, quando analisadas globalmente, não apresentaram mortalidade mais alta, enquanto no subgrupo com menos de 55 anos o aumento foi de 113%.
O problema com ambos os estudos Ć© que sĆ£o retrospectivos: a decisĆ£o de tomar ou nĆ£o cafĆ© foi tomada no passado, de acordo com a vontade pessoal. O ideal Ć© que fossem prospectivos, nos quais os participantes seriam acompanhados só depois de sorteados ao acaso para fazer parte do grupo dos abstĆŖmios ou dos tomadores de cafĆ©. Por razƵes óbvias, uma pesquisa com essas caracterĆsticas jamais serĆ” realizada.
Por isso, caro João Luiz, pode tomar seu café sem remorsos. Por via das dúvidas, faça como eu e todas as pessoas de bom senso: evite beber mais do que um litro por dia